entre a culpa e a ferida.
existem histórias em que ninguém sai inteiro.
há dias em que me sinto profundamente ferida.
em outros, tenho medo de ter sido eu quem deixou uma cicatriz em alguém.
e talvez o mais difícil seja aceitar que essas duas verdades podem caminhar lado a lado.
é estranho sentir-se traída enquanto se pergunta se, em algum momento, também traiu uma confiança.
sentir-se abandonada e, ao mesmo tempo, carregar a culpa silenciosa de ter ido embora primeiro.
olhar para trás e já não saber onde termina a dor que recebemos e onde começa a dor que causamos.
as fronteiras desaparecem.
e sobra apenas o peso.
a culpa tem um jeito cruel de apagar os detalhes.
ela não lembra o medo.
não lembra o cansaço.
não lembra tudo aquilo que tentávamos sustentar enquanto também desmoronávamos por dentro.
ela apenas sussurra:
“E se a culpa for toda sua?”
então a gente revisita cada conversa.
cada silêncio.
cada despedida.
procura o instante exato em que tudo se partiu.
como se existisse um único momento capaz de explicar o fim de uma história.
mas algumas histórias não quebram de uma vez.
elas se desgastam.
pelas palavras que nunca encontraram coragem para existir.
pelos pedidos de ajuda que vieram disfarçados de silêncio.
pelas expectativas que ninguém soube nomear.
pelas feridas que dois corações tentaram esconder um do outro.
talvez seja por isso que doa tanto.
porque amar alguém também significa aceitar que, às vezes, fomos abrigo e tempestade.
colo e distância.
presença e ausência.
há uma tristeza difícil de explicar em perceber que não somos apenas aquilo que nos fizeram.
também somos aquilo que, sem querer, fizemos aos outros.
e isso assusta.
assusta pensar que alguém possa carregar uma saudade que tem o nosso nome.
ou uma dor que nasceu das nossas escolhas.
então surge a sensação de ser a pior pessoa do mundo.
não porque necessariamente sejamos.
mas porque quem ama costuma carregar uma responsabilidade impossível: a de acreditar que poderia ter evitado toda dor.
talvez amadurecer seja aceitar que nenhuma relação cabe em um único culpado.
que duas pessoas podem sair machucadas da mesma história.
que é possível ferir enquanto se sangra.
e sangrar enquanto se tenta proteger aquilo que restou de si.
no fim, talvez a pergunta mais difícil não seja quem errou.
mas como continuar vivendo depois de descobrir que, dentro da mesma história, fomos, ao mesmo tempo, a ferida e a cicatriz.
-Silveira.

