olhares que pesam.
existe um tipo de olhar que não enxerga.
só mede.
só acusa.
só julga.
um olhar que não pergunta quem você é, mas já decide o que você merece.
ele escorrega pela roupa, pelo cabelo, pela cor da pele, pela forma de falar, pelas escolhas que você faz, e encontra defeito até no que não conhece.
é o olhar que torce o canto da boca e transforma a existência do outro em piada, incômodo ou ameaça.
é malícia disfarçada de opinião.
é ignorância vestida de superioridade.
é medo do diferente tentando se proteger ferindo primeiro.
cansa.
cansa ter que caber nos olhos alheios.
cansa diminuir quem você é para não causar desconforto.
cansa explicar o que nunca deveria precisar de explicação.
cansa existir sob constante análise.
e o pior é que, aos poucos, esses olhares deixam de vir apenas de fora.
a gente começa a se vigiar por dentro.
pensa duas vezes antes de vestir uma roupa.
antes de dizer o que pensa.
antes de demonstrar afeto.
antes de ocupar um espaço.
antes de simplesmente existir.
como se a liberdade precisasse da autorização de quem nunca nos conheceu.
é assim que o preconceito vence.
não apenas quando machuca.
mas quando nos convence a esconder partes de nós para sobreviver.
quando transforma autenticidade em risco.
quando faz do medo um hábito.
quando ensina que ser quem somos pode custar caro demais.
mas existe um perigo ainda maior do que os olhares maldosos.
é deixar que eles decidam quem você se torna.
porque, no fim, o preconceito nunca fala sobre quem é alvo dele.
fala sobre quem o pratica.
sobre os medos que carrega.
sobre os limites do próprio olhar.
sobre a incapacidade de enxergar humanidade onde existe diferença.
que o mundo continue olhando.
ele sempre vai.
mas que o seu olhar sobre si mesmo permaneça mais forte do que qualquer julgamento.
porque ninguém deveria aprender a desaparecer apenas para que os outros se sintam confortáveis.
-Silveira.

